Relato de uma Experiência Positiva da Mediação Transformativa Reflexiva

Este texto traz o relato de um caso real de atendimento em mediação realizado no Instituto Mediativa, conduzido pelos seguintes profissionais:
Mediadoras do caso: Antonieta Porto e Helena Mihoko Miyahara
Mediadoras da Equipe Reflexiva: Cristiane Toledo Catão, Fernanda Kobayashi, Maria Clara P. Christian, Sebastião Teixeira, Vera Meanda
Professora | Supervisora da Prática: Claudia Frankel Grosman

O Mediativa, Instituto de Mediação Transformativa assumiu o setor de mediação do Instituto FAMILIÆ em 2007. Em 2018 completou 20 anos em formação de mediadores.
O curso de Mediação Transformativa Reflexiva (MTR) tem como proposta didática a pratica reflexiva, onde os professores mantêm uma postura indagadora que gera reflexão na ação dos alunos. Os alunos levam como meta na sua posição de mediador a ação de mediar e o uso da reflexão como recurso.

A Mediação com a abordagem transformativa reflexiva é um método consensual de resolução de conflitos que busca, por meio do diálogo, um melhor entendimento entre as partes e possíveis soluções para a situação de conflito existente, tendo o foco na transformação da relação dos indivíduos para que possam através da interação relacional atingir seus objetivos.

Os mediandos, partes da mediação, participam ativa e voluntariamente do processo, cabendo aos mediadores, de forma imparcial, facilitar a conversa e permitir que os envolvidos reconheçam diferentes visões da situação apresentada com a consequente transformação da relação conflituosa em oportunidade de construção de soluções que os beneficiem.

A equipe reflexiva (ER) também composta por mediadores permite ampliar a experiência de escuta e debate sobre as questões trazidas no processo. Embora presentes no mesmo espaço físico dos encontros, tais profissionais contribuem de maneira complementar a atuação dos mediadores de campo, seja por meio de perguntas acerca de aspectos que consideram importantes do caso, seja por meio de novas reflexões e visões sobre o mesmo conflito (BERNARDES & YAZBEK, 2017) 1 .

Nas oficinas, o mediador em formação prática atua em caso real com supervisão antes e depois do atendimento e com a presença do supervisor e ER durante o mesmo.
Esta metodologia visa ampliar o potencial dos mediadores em aprendizado e ainda ofertar para a sociedade carente um atendimento gratuito e de qualidade.
No atendimento relatado aqui foram realizadas 03 (três) reuniões individuais de adesão, 05 (cinco) reuniões individuais e 07 (sete) reuniões conjuntas, com duração de 1h30 cada reunião de mediação.

Nas reuniões da adesão ao processo, foram apresentados aspectos gerais da mediação como conceito, princípios norteadores (como imparcialidade do mediador, confidencialidade, voluntariedade, autonomia da vontade, oralidade) modo como as reuniões seriam desenvolvidas, além de concedido espaço para que as partes esclarecessem eventuais dúvidas e considerações acerca da mediação. Como, neste caso, havia processos em andamento, os advogados foram consultados e validaram a mediação como procedimento adequado para o tema. As partes aderiram ao procedimento e o contrato de confidencialidade foi assinado.

As reuniões individuais seguintes serviram ao importante fim de ouvir cada um dos envolvidos sobre os fatos que os traziam até a mediação visto que os ânimos estavam bastante exaltados. Foi possível identificar as emoções e interesses envolvidos em cada uma das narrativas, além de permitir uma relação de confiança entre mediadores e mediandos.

Por fim, as reuniões com todas as partes foram marcadas por intenso trabalho de escuta e aplicação das técnicas de mediação; como resumo, uso de metáforas, parafrase, espelhamento, resignificação, conferência, enquadre entre outras.
Os dados do caso foram modificados para garantir a confidencialidade.

1 BERNARDES, C.; YAZBEK, C, V. Mediação de conflitos para iniciantes, praticantes e docentes. Cap.5. São Paulo:
Jus Podivm, 2017.

O relato da experiência
O procedimento teve início quando um casal que tinha o interesse em restabelecer a comunicação no âmbito familiar procurou o Mediativa. Segundo relataram, o filho do casal propôs realizar uma festa de formatura em conjunto com o primo, cuja mãe (irmã da esposa), havia falecido há alguns anos. A dificuldade retratada pelas partes dizia respeito à relação com o cunhado, viúvo e pai do sobrinho. Com o falecimento da irmã, as famílias se afastaram e o diálogo se dificultava ainda mais por conta do litígio envolvendo a herança da falecida.

Durante as reuniões individuais os mediadores esclareceram as informações necessárias sobre a mediação, verificaram se havia disposição e vontade de todos em participar. Uma vez constatada a voluntariedade das partes, todos tiveram a oportunidade de apresentar a sua visão sobre o ocorrido.

Neste primeiro contato, o viúvo mostrou-se bastante fragilizado com a situação.
Houve o cuidado para que toda emoção e sentimento fossem acolhidos, além do necessário equilíbrio para que tanto o casal quanto o cunhado fossem igualmente contemplados, sem que o número de participantes de cada lado influenciasse no desenvolvimento do processo.

Na primeira reunião, em conjunto, os participantes aguardaram o início do atendimento em lugares diferentes, já que havia, tensão, entre eles. Foram retomadas algumas diretrizes da mediação (voluntariedade, confidencialidade, imparcialidade, igualdade de oportunidades, respeito à fala do outro), ao passo que todos acordaram que os temas da mediação, seriam sobre o restabelecimento do diálogo e a organização da festa. Optaram pela não inclusão dos advogados durante os encontros, mesmo havendo processos em andamento, já que o foco dos encontros seriam questões subjetivas de retomada da confiança e do diálogo entre as partes. Os advogados sabiam e validaram que a mediação ocorria para este fim e acompanharam a distância junto com os seus clientes, dando suporte necessário.

A reconstrução do vínculo familiar foi trabalhada a cada encontro. Todos os envolvidos carregavam episódios do passado que, em dado momento, vinham à tona. A oportunidade de ouvirem um ao outro, em um ambiente favorável a essa troca permitiu que todos conhecessem as diferentes perspectivas sobre a mesma história, aproximando-os no que havia em comum, retomando as cordialidades e o interesse comum pela família e planos de convivência.

Durante as reuniões foi utilizado o suporte do flipchat para facilitar a visualização dos tópicos e desmembramentos do que as partes gostariam de tratar, além de permitir a ilustração do trabalho desenvolvido.

Após algumas semanas, diferentemente das primeiras reuniões, todos passaram a participar da conversa no mesmo recinto, sem a tensão de outrora. Todos reconheceram que a mediação era uma oportunidade para o fortalecimento das relações familiares, além de perceberem como interesse comum atender ao desejo dos meninos de realizar a festa de formatura em conjunto. O novo tom da conversa proporcionou pensar em outros temas que pareciam impossíveis como homenagear a falecida irmã/esposa, com a participação de toda a familia em harmonia e paz.

Na medida em que os acertos da festa evoluíam, através dos combinados feitos no contexto da mediação, era possível vislumbrar momentos em que a conversa estagnava, justamente por tocar em assuntos que envolviam emoções do passado.
Nesses episódios, as mediadoras de campo fizeram uso das reuniões individuais, cientes de que as questões subjetivas eram primordiais para qualquer evolução.

Considerando o pedido das partes era reestabelecer o diálogo para a realização da festa, algumas perguntas nortearam os trabalhos da mediação:

  • Continua sendo este o pedido?
  • O que precisa acontecer para cada um estar bem na festa?
  • O que mudou em relação ao combinado que fizeram, no inicio da mediação, de tratar os temas do inventário, após a festa? O quanto ele influencia no que querem cuidar? Querem conversar sobre o tema?

Na reunião conjunta que se seguiu a estas reuniões individuais, iniciamos fazendouma retomada do trabalho desde seu início, pontuando: como eles chegaram, os sentimentos trazidos e a amizade de dois adolescentes que motivaram os adultos a enfrentarem suas questões. Foi feita um analogia com a água represada: quando estoura a barragem, a água sai com muita força, traz sujeira e faz estragos. Neste momento a água precisa ser tratada, filtrada para poder ser ingerida e hidratar o corpo.

Nesta situação o uso da metáfora foi importante, pois trouxe de forma concreta uma conotação positiva sem os sentimentos negativos da experiência vivida, separando as pessoas do problema.

Todos mais calmos retomaram o diálogo.

Cada um colocou o quanto estas questões o afetavam e o que precisavam para conseguir ter uma festa tranquila. Neste momento cada um falou o que poderia fazer para atender o pedido do outro estabelecendo acordos e refletindo em como agir diante das cenas temidas, eventuais interferências externas que pudessem atrapalhar o cumprimento do que foi acordado.

Para formalização do término da Mediação, foi validado um  relato  sem teor jurídico e validado também pelos advogados, que serviu de memória, material para reflexão ou como um caminho para decisões e providências para o futuro.

Na despedida, ainda havia uma sensação de que o restabelecimento do diálogo estava frágil, uma vez que demonstravam uma falta de naturalidade e certa dependência da nossa presença para fluir no diálogo, mas quando as mediadoras acompanharam os três até o saguão, ocorreu uma conversa entre eles combinando um café para conversarem sobre as outras questões.

Fizemos um contato telefônico com todos após a festa, onde os relatos foram unânimes, descrevendo o evento como um sucesso!

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